O Caminho de Volta
Meus pés sangravam, eu andava rastejando-os entre as sombras desse mal. Aquela tempestade amarfanhava o meu coração, me atormentava aguilhoando-me com aflição e ameaçando-me com as piores das mortes... A morte do meu ser, da minha essência. Quem era eu ali daquela que eu já fui? Perdida entre as sombras, entre as ilusões que me deixavam cega. Fui jogada aos chutes, de um lado ao outro, senti o ódio crescendo dentro de mim, um ódio insano contra o meu criador, aqueles pensamentos martelavam na minha cabeça, uma época difícil para ambos onde meus sentimentos era o que menos lhe parecia ter importância. Eu gritava através de minhas atitudes que aquilo me machucava, fiz da forma mais ameaçadora para ele enxergar minhas dores, mas tudo parecia ser em vão, então decidi me calar e partir, deixar as sombras me consumirem, não tinha mais o que fazer ali onde somente minha carcaça estava presente, mas meu espírito, morto. Quem era eu ali daquela que eu já fui? Eu era justa, sábia, de espírito forte e destemida. Mas agora, eu sentia medo. Naquele momento eu era tudo, menos aquela que um dia fui. E eu achava que dessa forma seria melhor deixar crescer em mim a outra parte obscura do meu ser para que pudesse esconder minha dor e proferir minha vingança, queria que ele sentisse o que eu senti e fiz isso da pior maneira, sem perceber que aquilo também me mutilava por dentro, me deixava em pedaços que se dissolviam entre as lágrimas. As vozes na minha cabeça me torturavam me enchiam de temores. A pior parte de mim veio à tona. Mas por um instante, mesmo que sem forças eu consegui controlar minha mente, apartei-a das vozes que foram trocadas por flashes de memórias passadas, eu pude ver quem eu era e quem estava ao meu lado, segurando minhas mãos no momento em que eu as soltei, era ele, meu amado. Senti dentro de mim o seu amor, e que me causar dor não era a sua intenção. Abri meus olhos entre as sombras e pequenos passos luminosos apareceram no chão. Seria um caminho no qual deveria seguir? Mantive-me concentrada nas minhas memórias e segui aquela trilha luminosa. Logo à frente, avistei uma porta, minha mão deslizou sobre a maçaneta e abri lentamente. A névoa foi se dissipando e comecei a enxergar com mais clareza, se tratava de um quarto, não somente um quarto, mas aquele que pertencia a mim e ao meu amado. A lareira estava acesa como de costume, as flores em seus vasos bem cuidadas, e de costas, na lateral da cama, estava lá sentado, de cabeça baixa, tronco curvado para frente folheando um álbum de fotos, este que seria o nosso, Luz, meu criador.

Lágrimas escorriam pelo meu rosto, me aproximei devagar e acariciei sua face com minha mão. Ele ergueu sua cabeça desviando seu olhar vazio para mim, sua primeira reação foi dizer que aquilo era apenas uma ilusão, uma peça pregada pela sua imaginação. Eu peguei o álbum de suas mãos e o larguei na cama, segurei em suas mãos e sentei em seu colo fazendo-o passar suas mãos em torno do meu corpo. Deitei sobre seu peito apoiando minha cabeça em seu ombro, ele me abraçou forte e fechou seus olhos.
-Estou aqui, meu amor, eu encontrei o caminho de volta, seu amor por mim me chamou. Eu disse sem ouvir uma palavra dele, apenas senti seus braços em torno de mim apertando-me forte.
- Isso, apenas me abrace forte e não me deixe ser engolida pelas sombras novamente. Ficarei aqui com você se assim desejar. Fechei meus olhos e ali permanecemos por um longo tempo. Eu sabia que aquilo que eu lhe fiz abriu uma ferida muito profunda em seu coração, talvez irreversível, ou cicatrizes ficarão, não só no dele, mas em meu coração também. Ambos erramos, mas eu estava ali, sua cria, sua amada, para lhe perdoar e pedir pelo seu perdão.
O amor não morre.
