Frenesi - Parte 1
- 15 de nov. de 2016
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Pudesse eu ser manhã, dessas manhãs Primaveras, verões e invernos. Ainda me restam sentimentos dessa frágil humanidade, Ainda me restam as lembrança das manhãs, do fruto fresco Em meus lábios entreabertos, mordiscando seu pomo, Minha boca, sentia seu doce sabor, No canto, um fio de sumo escorria. Ah! Que belas as manhãs... Hoje, sou apenas trevas, a filha em abandono. Delírio de um pecado, onde o desejo por sangue é mais forte. Meu momento de fraqueza, não posso controlar, É impossível. Meu corpo incendeia ao sentir seu sabor, faz arder em chamas, Incontrolável chama. Minha alma, pobre alma Condenada pela eternidade...
Lembrar, relembrar e sonhar, era o que eu fazia, sem muitas opções presa naquele caixão. Eu entendia, compreendia o significado, sabia muito bem as intenções do meu senhor, sei que fazia parte do período de adaptação, ele queria que eu compreendesse o por quê de tudo isso, eu precisava me reencontrar, me reconhecer nessa nova condição de vida. Há pouco tempo atrás, eu pensava na morte em sua forma um tanto desigual da qual estou vivenciando agora. As pessoas nasciam, cresciam, viviam suas vidas da maneira como queriam, e depois de certo tempo, quando seus corpos já exaustos, quando não se sustentavam mais, morriam, para enfim, descansar. Era o fim da vida pra elas, suas almas estavam livres para partirem e darem inicio à mais uma etapa de sua evolução, era um ciclo contínuo. Mas, a minha morte, essa me acompanhará eternamente, minha alma estava presa, eu estava condenada à trilhar pelos caminhos mais obscuros e árduos como uma morta viva.
Alguns dias haviam se passado e algo a mais me amedrontava. Algo que estava fora do meu controle, a fome, a sede começara a me dominar. Meu senhor avisara que isso aconteceria, eu teria que aprender a controlar, nunca imaginei que seria tão difícil, neste caso, para uma recém criada, impossível. Ele vinha me visitar algumas vezes durante a noite para averiguar como sua criança estava progredindo. Em sua ultima visita eu já estava esvairada pela sede. Ouvia-se meus gritos por toda a extensão daquele ambiente, deixei arranhões profundos pela madeira do caixão, meu corpo se contorcia, minhas presas extraíram-se, mutilei meus lábios fazendo-os sangrar, sangue do qual tentei saciar minha sede. Tentativa em vão, ajudou a despertar ainda mais a ânsia por sangue. Não conseguia controlar meus pensamentos, a voz do meu senhor já não me empunhava mais respeito quando o mesmo dizia para eu manter o controle, soava em minha cabeça como ruídos incompreensíveis, a fome não me deixara pensar em mais nada e meu único objetivo era matá-la. Ele sabia que a qualquer momento eu seria capaz de destruir aquele caixão e sair descontrolada sem direção sedenta por sangue, mataria a primeira coisa viva que pudesse saciar-me, eu estava fora de si. Dei-me as "boas vindas" ao frenesi.







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